Sucesso é um ato de coragem

 

Ontem à tarde, depois de duas semanas sem impressora, resolvi levá-la para o conserto e aproveitei para iniciar a realização de um sonho, matricular-me em uma escola de teatro. Como professor, percebo que devo agregar diferencial, senão fico obsoleto no mercado, além do mais, fora da sala de aula, sou tímido, numa sociedade onde o QI (Quem Interage) é fundamental, a dificuldade na comunicação pode ser um entrave. Mas essa é outra conversa...

 

Objetivo cumprido, impressora entregue para o orçamento, matrícula efetuada com o início das aulas marcado para o dia seguinte. Ansiedade, expectativa, curiosidade e um "pouquinho" de vergonha já começavam. Mas essa é outra conversa...

 

Voltando para casa, garoa, trânsito complicado, filho e esposa esperando o retorno do papai e maridão, avaliações bimestrais para corrigir, artigo científico da pós para começar. Mas essa é outra conversa...

 

Paro no semáforo e à frente do carro um garoto apresenta um número de malabares como um exímio artista. Na calçada outro sentado esperando a sua vez. Chamo este:

- Boa noite! Tudo bom? Vem cá, por favor.

- Tudo bom, senhor?

- Tudo.

- Você também sabe malabares?

- (com um sorriso contagiante no semblante) Sei, por quê?

- É que sempre tive vontade de aprender e nunca consegui.

- Senhor, eu também não sabia. Comecei sozinho e quase optei por outra coisa, meu irmão me ensinou, tentei e consegui.

- É só tentar senhor!

Agradeci pela breve conversa e cheguei a uma conclusão: sucesso é um ato de coragem!

 

Quantas vezes sonhamos, elaboramos projetos de vida, colocamos no papel e desistimos porque estava difícil? Pense nas propostas, objetivos do início do ano. Empolgados coletivamente nos projetamos como vencedores, meses passaram-se e já não lembramos mais, ficaram no papelzinho colocado na carteira ou em um canto qualquer da casa. Os quilinhos continuam os mesmos, o mau humor também, nossa timidez, a vontade de mudar não deu em nada e continuamos na mesmice de sempre, em nosso mundinho bonitinho e organizado, zona de conforto é o que interessa. 

 

Fica a pergunta: como transformar sonhos em realidade? Passar do "mundo ideal" para o "mundo concreto"? Aristóteles, amigo e discípulo de Platão, pode nos auxiliar. Não que tenha escrito diretamente para o mundo corporativo, proponho uma breve interpretação a partir de alguns trechos de sua obra Ética a Nicômaco.

 

"Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer, e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem". (Ética a Nicômaco)

 

A vida está repleta de desafios e estes, por sua vez, antes de enfrentados, devem ser entendidos. Em primeiro lugar, devemos compreender que nossas ações sempre visam um fim. Falo das minhas opções, como também das suas. Independente das minhas opções, todas visam um único alvo. Acontece é que agimos como verdadeiros perdidos, não temos foco na vida, sendo assim, nossas ações perdem sentido, consequentemente os resultados não aparecem, apenas frustrações.

 

"Se, pois para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa que desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria nossos desejos, evidentemente tal fim seria o bem, ou antes o sumo bem [...] Mas não terá o seu conhecimento, por ventura grande influência sobre a nossa vida?" (Ética a Nicômaco)

 

Conhecer nossos desejos, já que nem todos possuem condições de serem realizados, torna-se fator essencial na busca da realização de nossos sonhos. Mais do que conhecer, saber direcioná-los para um fim. Chamem esse fim do que quiserem, eu o chamo de projeto de vida.

 

"A felicidade é, portanto, algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação". (Ética a Nicômaco)

 

Sou feliz, logo sou. Essa seria a máxima de Aristóteles nos dias atuais. O sentido da existência está na busca da felicidade. Ser feliz para ele é realizar-se dentro da polis (comunidade). Diferente pensamos nós, acreditamos que felicidade é uma busca individual, meramente solitária. Aliás, sejamos honestos, o outro é nosso inimigo público número um, ameaça constante.

 

Aristóteles nos ensina que somos felizes juntos. Quando você colabora no grupo com o que você tem de melhor, sem reservas, todos alcançam o sucesso, seu líder e inclusive você. Lembremos da história do início desse artigo, o garoto tentava aprender malabrares sozinho, só aprendeu quando recebeu ajuda do irmão, antes pensava em desistir.

 

A felicidade é uma atividade na visão aristotélica, somos felizes enquanto vivemos. Significa escolher levando em conta o outro. A polis é o palco para o sucesso. Se felicidade é atividade, pode-se afirmar com segurança que sonhar significa agir. Impulsionados pelos desejos que merecem ser realizados, tendo como partida a ação racional pautada na coletividade estamos preparados para o sucesso profissional.

 

Notem que a chave para o sucesso apontado por Aristóteles requer uma mudança de paradigma. Já que a sociedade atual prega justamente o inverso. No lugar do individualismo Aristóteles chama a atenção para virtude e se torna, por sua vez, a chave para a felicidade. Como adquiri-las? Basta habituarmos a conviver com elas! Este é o legado de Aristóteles para nós, homens e mulheres do século 21.

 

No cotidiano as virtudes estão presentes em nossos discursos. Não é preciso irmos longe para entendermos, voltemos o olhar para nós mesmos e, perceberemos que nossas atitudes, pelo menos em grande parte tendem para o individual. Pensemos nas empresas que sonham em unir competitividade e cooperação. São competitivas entre si, está é a lógica do mercado, todavia, para transformarem grupos em equipes necessitam da cooperação.

 

Somos admitidos nas empresas pelo nosso QI e demitidos pelo QE; a consultora Waleska Farias, afirma que 80% das demissões no mundo corporativo são por causa do QE (comportamentais).

 

O sucesso passa pela ordem comportamental. Não estamos habituados com a ética, pensar no outro. A moral foi a nossa preocupação. Desde pequenos somos preparados para o mercado de trabalho, passamos pela escola, onde adquirimos mais conhecimentos necessários para tal empreendimento e quando chegamos à empresa, onde deveríamos colocar tudo o que aprendemos para sermos felizes, pessoas de sucesso; entendemos que nos falta o essencial: aprender a conviver, pensar no outro, partilhar... Em suma, virtudes que nos levem a aventurar no caminho do sucesso.

 

A resposta está no hábito, para Aristóteles o prazer aperfeiçoa a atividade. É mais um ato racional do sentimental. Toda a sua filosofia foca a educação do caráter humano, orientando suas ações para o bem, adequando o indivíduo para a comunidade. As virtudes do indivíduo deveria ser um reflexo das virtudes da comunidade. Hoje, as empresas se aproximam dessa realidade quando se organizam e trazem ao público sua missão, sua visão e seus valores.

 

"A Virtude não é um dom e pode ser adquirida mediante o ensino[...] a natureza nos dá a capacidade de recebê-la, e esta capacidade se aperfeiçoa com o hábito". (Ética a Nicômaco)

 

A virtude é um hábito, essa é a chave para chegarmos ao sucesso profissional. Sendo um hábito, vai exigir de nossa parte um ato de coragem, pois vimos que começaremos a navegar contra ao que é proposto. Por outro lado, percebo que já existe grande movimentação por aqueles que pensam o mundo corporativo. A nossa cultura organizacional deve com urgência criar ferramentas para que a empresa torne-se lugar de realização de sonhos, partilha e convivência. A empresa deve propor para o funcionário algo mais do que seu salário, a felicidade. Se não for assim, continuaremos com uma visão totalmente fragmentada. Podemos ser felizes sim e no ambiente de trabalho. Está na hora de sermos a mesma pessoa em casa, no trabalho e com os amigos. E isso somente será viável, quando construirmos uma cultura organizacional pautada em virtudes. Não podemos esquivar-nos desse desafio.

 

"As coisas que temos que aprender antes de fazer, aprendemo-las fazendo-as - por exemplo, os homens tornam-se construtores construindo..." (Ética a Nicômaco), como o garoto do semáforo propôs:

 

- É só tentar senhor!

Master Coach Francisco Renaldo Costa

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